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Date: Sat, 11 Jan 1997 09:37:07 -0600 (CST)
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Subject: A Vitima (URL: http://www.geocities.com/Athens/4882/vitima.html)

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                                                              A Vitima
                             Vtima
                                    - Antnio Roberto Soares
                                     Psiclogo

                                         Todo o comportamento humano
   decorre da concepo que ns temos da realidade e nessa realidade
   existem dois plos bastante distintos: ns e aquilo que ns somos,
   ns e aquilo que nos cerca, ns e as outras pessoas. Nossa postura
   na vida depende do modo como estabelecemos essa relao; a relao
   entre ns e os outros, entre ns e os membros da nossa famlia,
   entre ns e outros membros da sociedade, entre ns e as coisas; a
   relao entre ns e o trabalho, entre ns e a realidade externa.
   
   A nossa maneira de sentir e de viver depende de como cada um de ns
   interioriza a relao entre essas duas partes da realidade, entre
   esses dois blocos da realidade. Uma das formas que aprendemos de
   nos relacionarmos com os outros  a postura que designamos por
   Vtima.
   
   O que  a vtima? A vtima  a pessoa que se sente inferior 
   realidade,  a pessoa que se sente esmagada pelo mundo externo,  a
   pessoa que se sente desgraada face aos acontecimentos,  aquela
   que se acostuma a ver a realidade apenas em seus aspectos
   negativos. Ela sempre sabe o que no deve, o que no pode, o que
   no da certo. Ela consegue ver apenas a sombra da realidade, em
   paralelo com uma incrvel capacidade para diagnosticar os problemas
   existentes. H nela uma incapacidade estrutural de procurar o
   caminho das solues e, neste sentido, ela transfere os seus
   problemas para os outros; transfere para as circunstncias, para o
   mundo exterior, a responsabilidade do que lhe est acontecendo. Ela
   no assume a sua posio na vida, culpa os outros pelo que est
   acontecendo no seu modo de encarar e perceber a vida. Esta  a
   postura da justificativa.
   
   Justificar-se  o sinal de que no queremos mudar. Para no
   assumirmos o erro, justificamo-nos, ou seja, transformamos o que
   est errado em injusto e, de justificativa em justificativa,
   paralizamo-nos, impedimo-nos de crescer. A Vtima  incompetente na
   sua relao com o mundo externo. Enquanto colocarmos a
   responsabilidade total dos nossos problemas em outras pessoas e
   circunstncias, tiraremos de ns mesmos a possibilidade de
   crescimento. Em vez disso, vamos procurar mudar as outras pessoas.
   
   Este tipo de postura provm do sentimento de solido.  quando no
   percebemos que somos responsveis pela nossa prpria vida, por seus
   altos e baixos, seu bem e seu mal, suas alegrias e tristezas; 
   quando a nossa felicidade se torna dependente da maneira como os
   outros agem;  quando condicionamos nossa felicidade e paz interior
   ao comportamento dos outros,  ao dos outros, quer eles sejam
   nossos amigos, nossos filhos, nossos pais, nossos cnjuges, nossos
   colegas de trabalho ou quaisquer outras pessoas que conosco se
   relacionam. E como as pessoas no agem segundo nosso padro,
   sentimo-nos infelizes e sofredores. Realmente, a melhor maneira de
   sermos infelizes  acreditarmos que  a outra pessoa que compete
   nos dar felicidade e, assim, mascaramos a nossa prpria vida frente
   aos nossos problemas.
   
   A postura de vtima  a mscara que usamos para no assumir a
   realidade difcil, quando ela se apresenta. A falta de vontade de
   crescer, de mudar da vtima  escondida sob a capa da apario
   externa. Essa  uma das maiores iluses da nossa vida: desejarmos
   transferir para a realidade que no nos pertence, sobre a qual no
   possumos nenhum controle, as deficincias da parte que nos cabe.
   Toda relao humana  bilateral: ns e a sociedade, ns e a
   famlia, ns e o que nos cerca. O fato do mundo externo nos
   apresentar aspectos negativos no quer dizer que no sejamos
   perfeitos e o fato de ns possuirmos uma deficincia no significa
   que o outro tambm a possua. Essas duas partes da mesma realidade
   no so antagnicas, no so uma simples relao causal e, sim,
   complementares e integradas. O maior mal que fazemos a ns prprios
    usarmos as limitaes de outras pessoas do nosso relacionamento
   para no aceitar a nossa prpria parte negativa.
   
   Assim, usamos o sistema como bode expiatrio para a nossa
   acomodao no sofrimento. A Vtima  a pessoa que transformou sua
   vida numa grande reclamao. Seu modo de agir e de estar no mundo 
   sempre uma forma queixosa, opo que  mais cmoda do que fazer
   algo para resolver os problemas. A vtima usa o prprio sofrimento
   para controlar o sentimento alheio; ela se coloca como dominada,
   como fraca, para dominar o sentimento das outras pessoas.
   
   O que mais caracteriza a vtima  a sua falta de vontade de
   crescer. Sofrendo de uma doena chamada Perfeccionismo, que  a no
   aceitao dos erros humanos, a intolerncia com a imperfeio
   humana, a vtima desiste do prprio crescimento. Ela se tortura com
   a idia perfeccionista, com a imagem de como deveria ser e tortura
   tambm os outros relativamente quilo que as outras pessoas
   deveriam ser. H na vtima uma tentativa de enquadrar o mundo no
   modelo ideal que ela prpria criou, e sempre que temos um modelo
   ideal na cabea  para evitarmos entrar em contato com a realidade.
   A vtima no se relaciona com as pessoas aceitando-as como so, mas
   da maneira que ela gostaria que fossem.  comum querermos que os
   outros sejam aquilo que no estamos conseguindo ser, desejar que o
   filho, a mulher e o amigo sejam o que ns no somos.
   
   Colocar-se como vtima  uma forma de se negar na relao humana.
   Por esta postura, no estamos presentes, no valemos nada, somos
   meros objetos da situao. Querendo ser o todo, colocamo-nos na
   situao de sermos nada. Todavia, as dificuldades e limitaes do
   mundo externo so apenas um desafio ao nosso desenvolvimento, se
   assumirmos o nosso espao e estivermos presentes. Assim, quanto
   pior for um doente, tanto mais competente deve ser o mdico; quanto
   pior for um aluno, mais competente deve ser o professor. Assim
   tambm, quanto pior for o sistema ou a sociedade que nos cerca,
   mais competentes devemos ser com pessoas que fazem parte desta
   sociedade; quanto pior for nosso filho, mais competentes devemos
   ser como pai ou me; quanto pior for a nossa mulher, mais
   competentes devemos ser como marido; quanto pior for nosso marido,
   mais competentes devemos ser como esposa, e assim por diante.
   
   Desta forma, colocamo-nos em posio de buscar o crescimento e
   tomamos a deficincia alheia como incentivo para nossas mudanas
   existenciais. S podemos crescer naquilo que ns somos, naquilo que
   nos pertence. A nossa fantasia est em querermos mudar o mundo
   inteiro para sermos felizes. Todos ns temos parte da
   responsabilidade naquilo que est ocorrendo. No raras vezes,
   atribumos  sociedade atual, ao mundo, a causa de nossas
   atribulaes e problemas. Talvez seja esta a mais comum das
   posturas da Vtima: generalizar para no resolver. Os problemas da
   nossa vida s podem ser resolvidos em concreto, em particular.
   Dizer, por exemplo, que somos pressionados pela sociedade a levar
   uma vida que no nos satisfaz,  colocar o problema de maneira
   insolvel. Todavia, perguntar a ns mesmos quais so as pessoas que
   concretamente esto nos pressionando para fazer o que nos
   desagrada, pode trazer uma soluo. S podemos lidar com a
   sociedade em termos concretos, palpveis. Conforme nos relacionamos
   com cada pessoa, em cada lugar, em cada momento, estamos nos
   relacionando com a sociedade, porque cada pessoa especfica, num
   determinado lugar e momento,  a sociedade para ns naquela hora.
   Generalizamos de maneira comum para no solucionarmos e como tudo
   aquilo que nos acontece est vinculado com a realidade, todas as
   vezes que quisermos encontrar desculpas para ns, basta olhar a
   imperfeio externa.
   
   Colocar-se como vtima  economizar coragem para assumir a
   limitao humana,  no querer entender que a morte antecede a
   vida, que a semente morre antes de nascer, que a noite antecede o
   dia. A vtima transforma as dificuldades em conflito, a sua vida em
   um beco sem sada. Ser vtima  querer fugir da realidade, do erro,
   da imperfeio, dos limites humanos. Todas as evidncias da nossa
   vida demonstram que o erro existe, existe em ns, nos outros e no
   mundo. Neurtica  a pessoa que no quer ver o bvio. Fazemos o
   jogo dos que nos querem controlar quando nos colocamos na posio
   de vtimas, no aceitando a fragilidade e as dificuldades humanas.
   A vtima  uma pessoa orgulhosa que veste a capa da humildade. O
   orgulho dela vem de acreditar que ela  perfeita e que os outros 
   que no prestam. Cr que se o mundo no fosse do jeito que ele ,
   se sua esposa no fosse do jeito que ela , se seus filhos no
   fossem do jeito que eles so, se o seu marido fosse diferente, ela
   estaria bem, porque ela, vtima,  boa, os outros  que tm
   deficincias, apenas os outros tm que mudar. A esse jogo chama-se
   o jogo da Infelicidade. A vtima  uma pessoa que sofre e gosta de
   fazer os outros sofrerem com o sofrimento dela,  a pessoa que usa
   suas dificuldades fsicas, afetivas, financeiras, conjugais,
   profissionais, para no crescer, mas para permanecer nelas e, a
   partir disso, fazer chantagem emocional com as outras pessoas.
   
   A maioria de nossas mgoas e ressentimentos resultam de que ns
   achamos que se sangrarmos, outras pessoas sofrero e se cairmos,
   outras ficaro tristes.  uma atitude de vingana com relao s
   outras pessoas. A vtima  a pessoa que ainda no se perdoou por
   no ser perfeita e transformou o sofrimento num modo de ser, num
   modo de se relacionar com o mundo.  como se olhasse para a luz e
   dissesse: "Que pena que tenha a sombra...",  como se olhasse para
   a vida e dissesse: "Que pena que haja a morte...",  como se
   olhasse para o sim e dissesse: "Que pena que haja o no...". E
   todas as vezes que quiser ser feliz  fcil, basta ver o que h de
   negativo. A luz e a sombra so faces de uma mesma moeda, a vida 
   feita de vales e de montanhas. No so as circunstncias que nos
   oprimem,  a maneira como nos posicionamos diante destas
   circunstncias, porque nas mesmas ircunstncias em que uns procuram
   o caminho do crescimento, outros procuram o caminho  da loucura, o
   caminho da alienao. As circunstncias so as mesmas, o que muda 
   a disposio para o alvorecer, para o desabrochar, ou a disposio
   para murchar e fenecer.
   
   Viver  resolver problemas e para cada problema existe uma soluo,
   porque um problema s pode ser verdadeiro se houver soluo. Um
   problema sem soluo  um problema falso. As vezes preferimos ficar
   com os problemas falsos para evitar a soluo dos problemas
   verdadeiros. Um dos jogos preferidos pela vtima para sofrer e
   fazer outros sofrerem  o jogo do Passado. O jogo do passado
   consiste em atribuirmos ao passado a responsabilidade pelo que nos
   esta ocorrendo no presente.  quando transpomos o passado para a
   realidade: se tivssemos estudado, se tivssemos casado com outra
   pessoa, se nossos pais no fossem como so, se nossa infncia no
   fosse como foi, se no tivssemos perdido aquela oportunidade, se
   no tivssemos tido filhos, estaramos bem, porque nos julgamos
   bons e perfeitos. No possumos limitaes; quem possui limitaes
    a nossa me, nosso pai, nossa infncia, nosso passado. Este jogo
    paralisante porque transforma numa viso causal, linear, a nossa
   prpria vida, quando de fato  estrutural e dinmica.
   
   Atravs desse jogo, selamos nossa vida com a crena num destino
   pr-determinado, e com isso escondemos a nossa falta de coragem
   para mudar hoje o que tem de ser mudado. As pessoas podem viver
   olhando para a frente, entendendo que hoje  o primeiro dia do
   resto de suas vidas, ou ento ficar olhando para trs, de costas
   para a vida. So aquelas pessoas que no conseguem viver o que est
   acontecendo hoje, pois esto muito presas a tudo que j passou, a
   tudo aquilo que j morreu. Mais cedo ou mais tarde, temos que nos
   perguntar: " o passado que cria o nosso presente ou  o presente
   que cria o nosso passado?" Evidentemente aprendemos que  o passado
   que faz o presente, que o momento presente  apenas o fruto de tudo
   que j passou. Mas temos, em nome da nossa felicidade, que
   reaprender que  o presente que cria o passado; em outras palavras,
   tudo antes de ser o passado teve de ser primeiro presente, tudo que
   estamos fazendo agora daqui a pouco ser passado. Vivamos
   intensamente o nosso presente, o nosso agora, porque daqui a pouco
   ele ser passado e no volta nunca mais.
   
   A vida  um momento sem retorno,  o aqui e o agora. No podemos
   substituir o nosso presente pelas preocupaes com o futuro e nem
   tampouco substituir a gratuidade e o calor do momento presente pela
   frieza das lembranas do passado, pois recordar  morrer. O passado
   tem profundo significado na nossa vida, mas somente como
   aprendizado, apenas como referncia para o nosso presente, e no
   como determinante da vida que ns vivemos hoje. Ns somos o mundo e
   a vida em transformao. O presente  o nico momento que de fato
   existe em nossa vida. A maneira mais desvitalizada de ser 
   transformar-se numa esttua de sal voltada para trs. Mas h
   pessoas que preferem viver o frio, o morno, o fantasma de ontem, ao
   invs da inebriante alegria - a vida e o calor do momento presente.
   Viver o presente  aceitar que, humanamente, s podemos ser felizes
   apesar de alguma coisa, que ns somos o que somos e no o que os
   outros querem que sejamos, e que viver  aceitar a co-autoria
   vivencial entre ns e o mundo, fazendo uma sntese com a vida que
   nos rodeia.
   
   
   ___________________________________
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*** References from this document ***
[orig] http://www.geocities.com/Athens/4882/vitima.html
[1] http://www.geocities.com/Athens/4882/litera.html
[2] http://www.geocities.com/Athens/4882/index.html

