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Date: Sat, 11 Jan 1997 09:37:04 -0600 (CST)
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Subject: Medo de Perder (URL: http://www.geocities.com/Athens/4882/medo.html)

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                                                        Medo de Perder
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                     Medo de Perder
                                        - Antnio Roberto Soares
                                          Psiclogo

   Um dos maiores obstculos para uma vida plena, harmnica, mais
   expressiva e signigicativa,  o medo de perder; sobretudo, o medo
   de perder algum, o medo de perder algum que ns dizemos amar, o
   medo de perder a esposa ou esposo, os filhos, os amigos, o patro,
   o empregado, o cliente. Esta emoo  a principal responsvel pelo
   nosso sofrimento vital. O medo de perder  o medo de nos tornarmos
   dispensveis para a pessoa com a qual nos relacionamos. O medo de
   perder se reveste de mil e uma formas, aparece sob mil disfarces:
   medo de sermos criticados por algum, medo de que falem mal de ns,
   medo de que nos humilhem, medo de sermos abandonados, medo de
   sermos rejeitados, medo de no sermos importantes, medo de no
   sermos ilustres, medo de sermos menosprezados,  medo de no sermos
   amados, medo da solido. E tudo isso pode ser designado mais
   claramente por uma palavra: cime.
   
   O cime  o medo de no ter algum, de no possuir algum, de no
   vir a ser dono de algum. Na relao cimenta, colocamos ns e o
   outro como objetos. Nesta relao, pessoa e objeto so a mesma
   coisa. No cime, temos medo de sermos algum dia considerados
   inteis, dispensveis a outra pessoa. Esta  a emoo do
   sofrimento,  a emoo do apelo, a emoo da relao confusa,
   misturada,  dependente. E o que a agrava  que na nossa cultura
   aprendemos  do cime como sendo amor. E o cime  justamente o
   contrrio.  O cime  o oposto do amor. Na relao amorosa, existe
   identidade: "Eu sou, independente de voc!" Na relao ciumenta,
   por outro lado, na relao objetal, perde-se a identidade: "Eu, sem
   voc, no valho nada. Voc  tudo para mim!" O amor  solto,  
   livre, vem de querncia ntima, est diretamente ligado ao sentido
   de liberdade, de opo, de escolha. O cime prende, amarra,
   condiciona, determina. "Com esta emoo, eu j no sou eu; sou o
   que o outro quer que eu seja. E eu sou o que o outro quer que eu
   seja, para que ele tambm seja o que eu quero que ele seja." No
   cime, h um pacto de destruio mtua, em que cada qual usa o
   outro como garantia de que no estar sozinho: "Eu me abandono para
   que o outro no me abandone, eu me desprezo para que o outro no me
   despreze, eu me desrespeito para que o outro no me desrespeite, eu
   me destruo para que o outro no me destrua.
   
   O cime  o medo de ser dispensvel a algum, e o mais grave talvez
    esteja aqui: passamos a vida inteira com medo de nos tornarmos
   para os outros um dia o que ns j somos - totalmente dispensveis.
    O homem , por definio, dispensvel, transitrio, efmero,
   aquilo que passa - e isto  bastante real. Em todas as relaes que
   temos hoje somos substituveis. O mundo sempre existiu  sem ns,
   est existindo conosco e continuar a existir sem ns. Ns somos
   necessrios aqui e agora, mas seremos dispensveis alm e depois. O
   medo de ser dispensvel a algum  o mesmo medo da morte, que
   tambem  real. O medo da morte  o cime da vida.  a vontade
   falsa, irreal, de sermos eternos, permanentes e imutveis.  O medo
   de perder nos leva a entender que as coisas s valem a pena se
   forem eternas, permanentes, durveis. Uma relao s tem valor,
   neste caso, se tivermos garantia de que sempre ser assim como . E
   como tudo  transitrio, como tudo  mutvel, como tudo  passvel
   de transformao, o medo de perder nos leva  a um estado contnuo
   de sofrimento.
   
   As consequncias do cime so muito claras: "Se eu tenho medo de
   que me abandonem, de me tornar dispensvel a algum, de que no me
   amem, ao invs de fazer tudo para ser cada vez mais, para ser cada
   vez melhor, eu vou gastar toda a minha vida, todas as minhas
   energias para provar aos outros que eu j sou o mais, que eu j sou
   o melhor, que eu j sou o primeiro. Ao invs de empenhar esforos
   para ser um marido, p. ex., cada vez melhor, um filho cada vez
   melhor, uma esposa cada vez melhor, um pai ou me cada vez melhor,
   um chefe cada vez melhor, uma empregada cada vez melhor, eu gasto
   minhas energias para provar  minha mulher, aos meus amigos,  aos
   meus filhos, ao meu marido, ao meu chefe, ao meu empregado,  que eu
   j sou o melhor pai do mundo, o que  mentira; o melhor marido do
   mundo, o que  mentira; o melhor amigo do mundo, o que  mentira; o
   melhor chefe do mundo, o que  mentira;  o melhor empregado do
   mundo, o que  mentira!"; e assim por diante.
   
   O cime nos conduz ao delrio da onipotncia. Os nossos atos, as
   nossas iniciativas, a nossa conversa, o nosso comportamento, as
   nossas consideraes, tudo  para mostrar aos outros que ns j
   somos bons, fortes, capazes e perfeitos. Aqui est a diferena
   bsica, fundamental, entre o medo de perder e a vontade de ganhar.
   O medo de perder  assim: "Ganhamos, ningum vai nos tomar.
   Gastaremos todas as energias para defender o que ns j possuimos,
   para conservar o que j ganhamos. Ns j chegamos ao ponto  mximo,
   s temos que perder". A vontade de ganhar, por outro lado,  assim:
   "Estaremos sempre ativos, descobrindo as oportunidades  do ganho.
   Procuraremos ganhar cada vez mais, ao invs de nos preocuparmos com
   possveis perdas. O que ns temos de mais sagrado  a nossa prpria
   vida, e esta, ns j vamos perder. Todas as outras perdas so
   secundrias. O medo de perder  reativo, defensivo, justificativo.
   As pessoas cimentas esto sempre  com um p atrs e outro na
   frente. Sempre se prevenindo para no perder, sempre se preparando,
   sempre se conservando. As pessoas com vontade de ganhar esto
   sempre ativas, sempre optando, arriscando. O medo de perder  a
   vivncia do futuro,  a vivncia antecipada do futuro, 
   preocupao. A vontade de ganhar,  por outro lado,  a vivncia do
   presente,  a vivncia da beleza do presente. Em tudo, a cada
   momento, existem riscos e existem oportunidades. No medo de perder,
   a pessoa s v os riscos. Na vontade de ganhar, a pessoa v os
   riscos mas, sobretudo,  v tambm as oportunidades. Cada momento da
   vida  um desafio para o crescimento. A vontade de ganhar, a qual
   nos referimos,  no significa ganhar de algum, mas gamhar de si
   mesmo,  ser cada vez mais, estar sempre disposto a dar um passo 
   frente, estar sempre disposto a crescer um pouco mais.  importante
    termos sempre para ns que hoje podemos crescer um pouco  mais do
   que ramos ontem; descobrir que ningum chegou ao seu limite
   mximo, e que idade adulta no significa que chegamos ao mximo de
   nossa potencialidade. No existe pessoa madura. Existe,  sim, a
   pessoa em amadurecimento. Todo o nosso sofrimento vem de uma
   paralizao do crescimento pessoal e cada um de ns sabe muito bem
   onde paralizou, onde a nossa energia est bloqueada,  onde no est
   havendo expanso da nossa prpria energia.
   
   Ainda no vimos, ate hoje, um relacionamento se deteriorar sem uma
   presena marcante do cime, do desejo de sermos donos da outra
   pessoa, de uma ansia de mais poder e controle sobre os pensamentos,
    os sentimentos e as aes da pessoa a quem dizemos amar.  O cime
    a doenca do amor,  um profundo desamor a si mesmo e,
   consequentemente, um desamor ao outro. Pelo cime, se estabelece
   uma relao dominador/dominado. O cime  a dor da incerteza com
   relao aos sentimentos de algum no futuro.  a raiva de no
   possuir a seguranca absoluta do relacionamento, do futuro.  a
   tristeza de no saber o que vai acontecer amanha. Alias, o que doi
   no cime  a inseguranca do futuro,  a inseguranca  do
   desconhecido. A loucura esta ai: Passamos a vida inteira tentando
   conseguir o que jamais conseguiremos - seguranca! A seguranca no
   existe, no existe nada. Ser seguro no significa acabar com a
   inseguranca, mas aceita-la como inerente a natureza do homem.
   Ninguem pode acabar com o risco do amor. Porisso, so  possivel
   estarmos em estado de amor, se sabemos estar em estado  de risco.
   Desperdicamos o unico momento que temos, que  o agora, em funo
   de um momento inexistente, o futuro. Parece que as pessoas so valem
   para nos no futuro. Nos no curtimos hoje  o relacionamento com a
   mulher, com os filhos, com os amigos, sofrendo pela possibilidade
   de um dia no sermos queridos por eles.
   
   O filho, por exemplo, parece que sos no  importante amanh quando
   crescer, se formar, quando casar, quando trabalhar, etc. Ate hoje
   ainda no conhecemos um pai preocupado com o futuro dos filhos que
   estivesse brincando com eles. Em geral, no tm tempo  porque esto
   muito preocupados em assegurar-lhes um futuro brilhante.
   
   O cime  a incapacidade de vivenciarmos hoje a gratuidade da vida.
   Hoje  o primeiro dia do resto da nossa vida, querendo ou no. Hoje
   estamos comecando, e viver  considerar cada segundo de novo. A
   cada dia, o seu proprio cuidado. O medo daquilo que me me pode
   acontecer tira minha alegria de estar aqui e agora, o medo  da
   morte tira-me a vontade de viver, o medo de perder algum tira-me a
   beleza de estar com ele agora. Alias, quando temos medo de perder
   algum,  porque imaginamos que as pessoas so nossas. Ninguem pode
   perder o que no tem e nos sabemos que ninguem  de ninguem.  Cada
   pessoa  unica e exclusivamente dela mesma. Esta  outra falsidade.
   Podemos perder um livro, um isqueiro, um baralho,  uma bolsa, porm
   jamais uma pessoa.
   
   O sinnimo do medo de perder  a obsesso do primeiro lugar. O que
    a obsesso do primeiro lugar?  colocarmos nos outros a tarefa
   impossivel de sermos sempre os primeiros em todos os lugares  e em
   todas as circunstancias. Se  em casa, queremos ser o primeiro; no
   trabalho, queremos ser o primeiro; numa reuniao, queremos ser o
   primeiro; no futebol, queremos ser o primeiro; num assunto
   especifico, queremos ser o primeiro; e em outro assunto qualquer,
   sempre o primeiro.
   
   O primeiro lugar  amarelante, deteriorante, ao passo que o segundo
    lugar  esperancoso,  reverdejante, pois quando algum chegou ao
   cume da montanha, so lhe resta um caminho: - comecar a descer.
   
   No segundo lugar, ainda temos para onde ir, para onde crescer. A
   postura do segundo lugar nos leva ao crescimento, ao crescimento
   continuo. Por que voce no se decreta no segundo lugar, mesmo
   quando esteja ocupando socialmente e eventualmente o primeiro
   lugar?  O segundo lugar, no em relao ao outro, mas em relao a
   voce mesmo, ou seja, ainda temos por onde crescer e melhorar. Voc
   sabe por que o mar  to grande, to imenso, to poderoso?  porque
   teve a humildade de se colocar alguns centimetros abaixo de todos
   os rios do mundo. Sabendo receber, tornou-se grande. Se quisesse
   ser o primeiro, alguns centimetros acima de todos os rios,  no
   seria o mar, mas uma ilha. Toda a sua agua iria para os outros e
   ele estaria isolado. E, alem disso, a perda faz parte, a queda faz
   parte, a morte faz parte.  impossivel vivermos satisfatoriamente
   se no aceitarmos a perda, a queda, o erro e a morte. Precisamos
   aprender a perder, a cair, a errar e a morrer. No e possivel
   ganhar sem saber perder, no e possivel andar sem saber  cair, no
   e possivel acertar sem saber errar, no e possivel viver sem saber
   morrer. Em outras palavras, se temos medo de cair,  andar sera
   muito doloroso; se temos medo da morte, a vida  muito ruim; se
   temos medo da perda, o ganho nos enche de preocupaes. Esta  a
   figura do fracassado dentro do sucesso. Pessoas que quanto mais
   ganham, quanto mais melhoram na vida, mais sofrem.  Para a pessoa
   que tem medo de ficar pobre, quanto mais dinheiro  tem mais
   preocupada fica; para a pessoa que tem medo do fracasso, quanto
   mais sobe na escala social, mais desgracada  a sua vida.
   
   Em compensao, se voce aprende a perder, a cair, a errar, ninguem
   o controla mais. Pois o maximo que pode acontecer a voce  cair, 
   errar,  perder, e isso voce j sabe. Bem-aventurado aquele que j
   consegue receber, com a mesma naturalidade, o ganho  e a perda, o
   acerto e o erro, o triunfo e a queda, a vida e a morte.
   
   
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*** References from this document ***
[orig] http://www.geocities.com/Athens/4882/medo.html
[1] http://www.geocities.com/Athens/4882/litera.html
[2] http://www.geocities.com/Athens/4882/index.html

