From: Lenimar Nunes de Andrade 
Date: Thu, 31 Aug 2000 19:58:24 -0300
Reply-To: mundocatolico@egroups.com
Subject: [Mundo Catolico] Carta aberta aos protestantes


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                 CARTA ABERTA AOS PROTESTANTES
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                             por Fábio Morais --- publicado na
                             revista "Pergunte e Responderemos"
                             N. 459, agosto/2000.


"Vós dizeis  que a Igreja Católica apostatou, que o paganismo, como
um tufão incontrolável, lhe penetrou todos os recantos, e, qual um car-
rasco impiedoso, não poupou nenhum dos seus membros. A acusação é
grave, e exige provas indiscutíveis. E que provas, senhores, me podereis
apresentar? Eu vos direi: Alegareis o culto da Virgem Maria, o purgatório,
a veneração das imagens e outras tantas doutrinas e práticas que o pro-
testantismo, no seu ódio incontido à Igreja Romana, repudiou. Ora, des-
de quando o repúdio do protestantismo serve como prova de alguma
coisa? Direis que a Bíblia se opõe a essas doutrinas e práticas. Mas
quem o disse? O protestantismo? Então voltamos para o mesmo lugar,
visto que não me serve o repúdio do vosso protestantismo, assim como
não vos servem as afirmações do meu Catolicismo. É tudo uma questão
de interpretação. Se disserdes, portanto, que tais coisas são contrárias
às Escrituras, eu vos responderei que não são, e, se apontardes textos
que, na vossa opinião, favorecem o que sustentais, vos direi que o vosso
próprio entendimento vos traiu, e indicarei mil outras passagens a con-
trastar com o que pensais ser a verdade. Por vossa vez, certamente me
acusareis de torcer miseravelmente a Palavra de Deus. O que restará,
pois. Nada além de afirmações contra afirmações e interpretações con-
tra interpretações. Tudo findará numa contenda inútil, dessas que
embrutecem o espírito e ensoberbecem a inteligência, já tão inclinada à 
vaidade.

Não, senhores! Devemos partir de um ponto que nos seja pacífico, 
de uma premissa que todos admitamos. Somente assim saberemos com
quem está a verdade e onde reside o erro.

Afirmais a paganização da Igreja, e eu não me incomodo em
concedê-lo por um momento. A Igreja Católica apostatou? Seja. Ora, se
veio a apostatar, é porque, de fato, não era ainda apóstata. Quem diz
apostasia diz a passagem de uma realidade para outra diametralmente
oposta. O ato de apostatar exige uma condição prévia inteiramente in-
compatível com a apostasia. Assim como uma barra de ferro só se pode-
rá esquentar se estiver fria, e um pedaço de madeira só poderá partir
se estiver inteiro, e um homem só poderá morrer se estiver vivo, também
a Igreja Católica só poderia apostatar se estivesse em algum momento
livre de apostasia; só poderia paganizar-se se não estivesse paganizada
ainda. Negareis o óbvio? Não o creio.

Muito bem. Mas se um dia a Igreja não foi apóstata, se não era
paganizada em algum momento da história, segue-se que foi um dia le-
gítima, autêntica, verdadeira. Se era verdadeira, era, por conseguinte, a
Igreja de Jesus Cristo, pois que não havia outra. Temos, então, que essa
Igreja que chamais apóstata, foi em alguma época a verdadeira Igreja,
pura nas suas doutrinas e práticas. Negareis o óbvio? Não o creio.

Mas afirmais que ela apostatou. Como? A verdadeira Igreja pode-
ria alguma vez apostatar? É aqui, senhores, que a vossa afirmação des-
morona, como um imenso castelo de areia firmado na flacidez do chão
molhado da praia. Desde quando a Igreja poderia apostatar? Nunca! Je-
sus Cristo teria sido um mentiroso, um impostor, e mui justa seria a sen-
tença condenatória exarada por Pôncio Pilatos e a acusação vinda da
parte do Sinédrio. Mas isso ninguém jamais cogitou. Justo foi Pilatos?
Justo o Sinédrio? Impossível!

As promessas neotestamentárias da assistência divina à Igreja, por
outro lado, são muitas e claras.

Ao dizer a Pedro do estabelecimento da Igreja, o Salvador garantiu
que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela (cf. Mt 16, 18).
Ora, se a Igreja depois disso apostatou, deixando de ser a verdadeira
Igreja, segue-se que as portas do inferno prevaleceram e Jesus foi um
falso profeta. Em outra ocasião, pouco antes de ascender, o Senhor dis-
se aos apóstolos que ficaria com eles "até a consumação dos séculos"
(Mt 28, 20). Mas o que seria desta presença sempre continuada, se o 
paganismo depois invadisse a Igreja e a corrompesse até os seus funda-
mentos?

Sabendo da proximidade da sua ida para junto do Pai, Jesus falou
do Espírito Santo: "Eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito,
para que fique eternamente convosco" (Jo 14, 16; ainda: 14, 26; 15,
26). Mas onde, senhores, a eficácia da atuação deste Paráclito se
apostatasse a Igreja?

Ah, galileu! Se a Igreja apostatou, não passaste de um traidor mi-
serável, que nos ludibriou a todos! Prometeste que as portas do Inferno
jamais prevaleceriam, mas a Igreja apostatou. Prometeste a tua assis-
tência até o final dos séculos, mas a a Igreja apostatou. Prometeste
o Espírito da verdade para que ficasse eternamente, mas a Igreja apostatou.

Ah! Serei ateu! Passarei para a irreligião! O Jesus em que acredi-
tei mentiu para mim! Oh, judeus! Acolhei-me em vosso meio, abraçai-me
em vossas sinagogas! O Messias não chegou! Jesus mentiu!

Bendito sejas, Caifás, por teres denunciado um falso Cristo!
Barrabás! Bendita a tua libertação! Judas! Judas! Por que tiraste a pró-
pria vida? Morreste por um farsante! Nero! Nero! A humanidade te será
eternamente grata por teres usado da tua força para exterminar os segui-
dores de um embusteiro que se dizia Redentor.

Não soubesse eu, senhores, que a assistência divina é infalível e
que tem, pelos séculos, preservado a Igreja de todas as heresias, e estes
brados de revolta soariam os mais justos e louváveis. Mas sei que a Igre-
ja, um dia edificada sobre a Rocha, jamais renegou os ensinamentos que
recebeu, porque nela atua aquele que é a própria Verdade, mesmo que
assim não o queiram as vossas incontáveis denominações, que, não ten-
do Deus Cristo por fundador, jazem impotentes ante um turbilhão de con-
tradições doutrinárias."


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